ABALO I Written By Manuel Furtado 2018

ABALO I - solo show

ENGLISH VERSION

(translation by Mariana Belo)

Nádia Duvall is a glimpse of a future that few dare to dream of. Her life inevitably represents the absolute victory over our worst fears. I dare say this because a little over 30 years ago the artist survived what hundreds of thousands are going through today, as they try to reach Europe as refugees, from an Africa that’s been long since stripped of any hope. In this exhibit, like in all of her work (and that of her nine heteronyms), we can find a truly autobiographical body of work, that ties into events of her first infancy, shrowded in the fog of forgetfulness but filled with affection, authenticity and relevance. I think it’s essential to at least mention some of the events explored in this exhibit: the encarceration of her biological father and the gates that pulled him away from his daughters, his religious radicalization, Nádia’s escape, with her mother, from Argelia to Spain and then Portugal, the death of her mother, not many years later, as a consequence of that escape… Still, with the afectionate investment of her adoptive family, she was able to study Plastic Arts in Caldas da Rainha, got her master’s degree in Painting from Belas Artes in Lisbon, and won multiple awards and a protagonism that seems clearly insignificant compared to what it’s sure to grow into in the future.

Nádia finds herself in the connection between interior and exterior, between her past and our future, between the I and the Other, the unconscious and the unknown. In these coordinates, inscribed into a compass rose that we face in this exhibit, we find the skin (of paint) as an interface, which, in a previous time, was found in a pool that the artist entitles as “womb”, that strenghtens the work… A canvas that turns into see-through chiffon, porous and allowing for the cutaneous breathing of light and gaze… A canvas frame as a “skeleton” and the source of all the emotional atmosphere that defines the aura of this exhbit. It becomes, then, an exhibit and an artist “without borders”, just like it’s written in arabic on the gallery’s floor. Between doors and imported like merchandise, or like on a work: “Imported”. Red like flesh, and not just because of the political weight. Loss… Reunion… It’s because of this and much more that, in the future, a short documentary will be inevitable so that we can see the future of so many through this intense life that the artist encarnates.

PORTUGUÊS

Nádia Duvall é um vislumbre de um futuro com que poucos se atrevem a sonhar. A sua vida representa inevitavelmente a vitória absoluta face aos nossos piores medos. Atrevo-me a dizer isto porque há pouco mais de 30 anos a artista viveu na pele o que centenas de milhares vivem hoje quando tentam chegar à Europa como refugiados, vindos de uma África à qual toda a esperança já foi roubada há muito. Nesta exposição assim como em toda a sua obra (e dos seus 9 heterónimos) encontramos um corpo de trabalho verdadeiramente autobiográfico que se prende com acontecimentos da primeira infância envoltos na neblina do esquecimento mas cheios de afectos, autenticidade e relevância. Acho essencial pelo menos referir alguns eventos que são explorados nesta exposição: a prisão do pai biológico e as portas que o afastaram das suas filhas, a sua radicalização religiosa, a fuga de Nádia com a sua mãe da Argélia para Espanha e depois para Portugal, a morte da sua mãe passados poucos anos como consequência dessa fuga… Ainda assim, com o investimento afectivo da sua família adoptiva, conseguiu estudar Arte Plásticas nas Caldas da Rainha, fez o mestrado em Pintura nas Belas Artes em Lisboa e ganhou múltiplos prémios e um protagonismo que me parece ainda claramente insignificante quando comparado com o que deverá vir a ter.
Nádia encontra-se na ligação entre o interior e o exterior, entre o seu passado e o nosso futuro, entre o Eu e o Outro, o inconsciente e o desconhecido. Nestas coordenadas, inscritas numa rosa-dos-¬ventos com que deparamos nesta exposição, encontramos a pele (de tinta) como um interface outrora numa piscina, a que a artista chama “útero”, que enrijece e se torna obra… Uma tela que passa ser um chiffon transparente, poroso e que permite a respiração cutânea da luz e do olhar… Uma grade de tela que é um “esqueleto” e a fonte de toda a atmosfera emocional que define a aura desta exposição. Fica portanto uma artista e uma exposição “sem fronteiras” como está escrito em árabe no chão da galeria. Entre portas e importada como mercadoria, ou como está num trabalho: “Emportada”. Encarnada de carne e não só pela sua carga política. Perda… Encontro... É por tudo isto e muito mais que no futuro um pequeno documentário será inevitável para que se consiga ver o futuro de tantos através desta vida intensa que a artista encarna.